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segunda-feira, 26 de março de 2018

O ponto verde.


Avshalom Kapach


Nas fotos aéreas e de satélite, o Oriente Médio aparece com cores amareladas e avermelhadas, destacando-se um ponto verde em seu interior. Esse ponto verde não é um oásis natural, pois até meados do século 20 ele também era uma área deserta, assim como a região ao seu redor. Foi através da determinação e da fé de pessoas, que há mais de cem anos voltaram à sua pátria, que esse ponto começou a aparecer no mapa.
Os campos verdes, as plantações, os olivais, as vinhas e as estufas ampliadas transformaram o amarelo em verde.
Atualmente, o contorno de Israel pode ser reconhecido facilmente desde o espaço. As matas verdes, as lavouras, as cidades e a infraestrutura diferenciam Israel dos países árabes. No lado israelense da fronteira do Sinai com o Egito, o deserto está florido. Os campos verdes, as plantações, os olivais, as vinhas e as estufas ampliadas transformaram o amarelo em verde. No lado egípcio, jordaniano e sírio permanece a natureza totalmente seca e deserta.
Através da história, as guerras religiosas causaram a devastação dessa região. Há milhares de anos, as pessoas ficavam ali para cultivar a terra. A agricultura obrigava que as pessoas permanecessem morando na região, e assim se desenvolveram as vilas, cidades, países e culturas. Entre essas e à margem do desenvolvimento cultural, no entanto, também viviam os nômades, que não abriam mão da liberdade de se movimentarem de um lugar para o outro. Na Europa se estabeleceu uma nova cultura, trazida pelo Império Romano, com a implantação de estradas e monumentos. O Império Romano unificou as mais diferentes sociedades em seus domínios. Os bárbaros e as tribos nômades viviam fora das fronteiras culturais e, com alguma frequência, realizavam incursões para saquear em áreas do Império Romano. Eles queriam aproveitar o novo mundo, porém, sem se integrarem na sua vida cultural. O que finalmente causou a derrocada da civilização ocidental romana foi a complacência e a incapacidade dos seus líderes em barrar a “onda de imigrações” que ameaçava a vida pública e o sistema de leis da sociedade.
No Oriente Médio, na Mesopotâmia, desenvolveu-se uma cultura tecnológica. No Egito, houve o desenvolvimento agrícola. Entre essas duas culturas mundiais históricas ficava essa pequena faixa de terra, limitada ao oeste pelo Mar Mediterrâneo e, ao sul, leste e norte, pelo deserto. No período bíblico, surgiram os reinos de Israel nessa faixa de terra. Naquela época, o povo de Israel sofria muito com os saques realizados pelos povos estrangeiros. A Bíblia relata de Gideão, que desejava pôr um fim aos saques efetuados pelos midianitas e outros povos das áreas desérticas. Gideão derrotou os invasores vindos do deserto. No decorrer da era bíblica, os reis definiram as fronteiras dos países.

O povo de Israel cuidou de suas terras, ao contrário das nações árabes ao redor. Estas investem mais em tentativas de eliminar Israel. Com os recursos provenientes do comércio de petróleo, os países árabes certamente teriam condições para implantar irrigação e para proporcionar o cultivo de suas regiões áridas.
Até o início do século 20, a maior parte da área de Israel era deserta. Durante a primavera, as tribos do deserto e os nômades mantinham-se próximos a Erez, em Israel ou na Síria. No outono e no inverno, eles ficavam na região deserta da Arábia Saudita. Após a declaração do Estado de Israel, seus cidadãos se concentraram em recuperar o deserto. Fé, cultura, economia e tecnologia afastaram o estado deserto e pintaram um ponto verde dentro de um contorno amarelo. O povo de Israel cuidou de suas terras, ao contrário das nações árabes ao redor. Estas investem mais em tentativas de eliminar Israel. Com os recursos provenientes do comércio de petróleo, os países árabes certamente teriam condições para implantar irrigação e para proporcionar o cultivo de suas regiões áridas.
Os palestinos receberam mais de US$ 20 bilhões dos países ocidentais. Os recursos, ou desapareceram em canais obscuros, ou foram empregadas para a propaganda e para a guerra contra Israel.
Em 1996, os palestinos perderam a grande chance, ao lado de Israel, de estabelecer um novo sistema econômico baseado em novos princípios sociais. Os Estados Unidos e a União Europeia investiram mais dinheiro para a autonomia palestina do que foi investido na Europa, após a Segunda Guerra Mundial. De acordo com dados do Ministério do Exterior israelense, somente em 25 anos, até 2013, os palestinos receberam mais de US$ 20 bilhões dos países ocidentais. Os recursos levantados pelos doadores ocidentais, ou desapareceram em canais obscuros, ou foram empregadas para a propaganda e para a guerra contra Israel. Também na superfície o conflito mostra sua face: terra cultivada contra deserto. Duas visões de mundo impossíveis de serem unificadas, tanto hoje como naquela época. — Avshalom Kapach (israeltoday.co.il)

http://www.chamada.com.br/mensagens/ponto_verde.html

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A mudança da face do Ocidente

Elwood McQuaid
Dirija seu carro por quase todas as cidades dos EUA em um domingo de manhã e você verá os estacionamentos das igrejas cheios. Contudo, uma revolução cultural está acontecendo que afronta tudo o que muitas daquelas igrejas têm crido e aceito como verdadeiro e moral durante mais de dois séculos. Essa mesma tendência se alastra por todo o Ocidente.
Uma minoria militante está promovendo uma guerra generalizada contra Deus e contra o cristianismo, e parece que está vencendo. Ateus alardeiam continuamente a causa de uma sociedade sem Deus, ridicularizando as crenças cristãs e desprezando todos aqueles que rejeitarem a filosofia deles. O resultado é uma sociedade caótica e possivelmente à beira de um colapso.
Ironicamente, um comentarista secular tomou a responsabilidade de perguntar por que a maioria dos cristãos não está se levantando contra os fanáticos religiosos decididos a destruir nossa fibra moral e espiritual. Por que existe esse silêncio quase total dos mais afetados e dos que mais têm a perder se o paganismo secular da facção radical se tornar a religião dominante?

Religião Sem Deus

Independentemente dos protestos que afirmam o contrário, o ateísmo é uma forma de religião. Enquanto o verdadeiro cristianismo centraliza sua fé em Cristo, o ateísmo (juntamente com o agnosticismo) não adora nada. É uma fé de fábulas na qual todo indivíduo (na prática) fabrica deuses segundo seu próprio feitio.
Os ateus fazem até mesmo proselitismo, porém com uma característica única: eles forçam comunidades inteiras ou grupos inteiros de pessoas a se curvarem diante de suas crenças ou a sofrerem as conseqüências legais. Freqüentemente, a reclamação de um único ateu, de ter sido pessoalmente ofendido por uma representação, manifestação ou celebração cristã, impele uma justiça condescendente a desprezar a vontade e as tradições da maioria em favor daquele ateu. Forçar sua descrença sobre os outros parece ser o compromisso sagrado dos ateus. Eles não toleram nenhuma oposição, não deixam nenhum espaço para a filosofia “viva e deixe viver”, e são determinados a buscar e destruir tudo que tenha alguma ligação com Deus.
Talvez uma participante de um programa de entrevistas na televisão tenha se expressado melhor: “Eu gosto do Natal”, exclamou ela. “Só não gosto da parte religiosa do Natal”.

Separação Versus Integração

Dentre as transgressões mais debilitantes dos antigos israelitas estava o desejo de se tornarem como as nações ao seu redor. O clamor deles por um rei resultou no desastroso domínio de Saul como o primeiro monarca de Israel. Este não foi, logicamente, o final da história. Mas, em todas as gerações, os crentes são pressionados a se tornarem menos notados como pessoas cuja distinção é seu distanciamento das culturas e dos estilos de vida corruptos.
Esquecido em meio à afobação em direção à assimilação e à aceitabilidade está o fato de que a igreja primitiva triunfou sobre o paganismo por ser diferente. Separação é uma palavra que se tornou praticamente extinta no léxico evangélico atual. Infelizmente, essa palavra veio a ser erroneamente emparelhada com legalismo.
Na verdade, o apelo da igreja primitiva estava na disposição dos crentes de perderem a vida em vez de se renderem aos conformistas e adotarem as tradições e costumes das sociedades sem Deus ao redor dela. Os cristãos primitivos demonstraram um compromisso inabalável com Cristo, acima de tudo. Foi a força do testemunho deles e de sua firme devoção que mudou o mundo. Seu monoteísmo, sua fidelidade no casamento, sua insistência em permanecerem na verdade como padrão de vida, e sua recusa em serem inclusivistas e em apoiarem a adoração de deuses mitológicos, foi que os separou dos outros e fez deles crentes inabaláveis.
Eles se recusaram a adotar uma postura de “seu deus pode ser tão bom quanto o meu”, com a finalidade de se encaixarem naquelas sociedades. Se os cristãos primitivos tivessem se moldado às práticas pagãs populares e às suas deidades, o resultado teria certamente sido a morte do cristianismo. A atual fascinação que segmentos significativos da comunidade evangélica parecem ter com o comprometimento das posições bíblicas essenciais é extremamente perigosa. A estratégia do “se você não pode vencê-los, junte-se a eles” contradiz os ensinamentos de Cristo. Disse Jesus:
“Se o mundo os odeia, tenham em mente que antes me odiou. Se vocês pertencessem ao mundo, ele os amaria como se fossem dele. Todavia, vocês não são do mundo, mas eu os escolhi, tirando-os do mundo; por isso o mundo os odeia” (Jo 15.18-19, NVI).
Muitíssimos cristãos defensores da mudança estão mais interessados em se tornarem socialmente aceitos do que em permanecerem fiéis às Escrituras. Essa reviravolta no caminho colocou muitos evangélicos num despenhadeiro escorregadio. Eles evidenciam mais diversão do que oração; eles silenciam o claro imperativo do Evangelho de Cristo com receio de que ele seja ofensivo; eles defendem o inclusivismo, invocando um entendimento adotado recentemente que prega a fraternidade universal. Estes são conceitos com os quais nossos antepassados espirituais jamais sonharam; e, a menos que sejam corrigidos, grande parte do evangelicalismo está em perigo.
Em seu blog, o autor e pesquisador George Barna fez uma observação perspicaz em 2011, quanto a onde o atual curso das coisas poderá nos levar:
Sobretudo, o quadro não está agradável, embora ainda não seja um desastre. Se as tendências existentes continuarem, provavelmente veremos um crescimento no número das pessoas que não aceitam uma definição convencional do caráter de Deus e das pessoas que rejeitam a precisão dos princípios ensinados nas Escrituras.
Os conformistas crêem que os relacionamentos, a camaradagem e a afabilidade levarão as pessoas a Cristo. É um tipo de salvação por osmose. Segundo a visão deles, a redenção será subjetivamente induzida sem uma definição verbal.
O problema é que as coisas não funcionam desta maneira. O mandamento de Jesus para irmos e pregarmos o Evangelho para um mundo perdido e que está morrendo é um absoluto, não uma opção. Nós podemos e devemos ser agradáveis, porém não podemos sorrir para as pessoas e, com isso, achar que elas vão para o céu. Remova a mensagem da salvação que transforma a nossa vida através da fé em Jesus Cristo e não sobra nada a não ser mais uma macilenta facção religiosa.

A Ironia da Exclusão

Claramente, algumas pessoas têm uma compulsão para estabelecer relacionamentos harmoniosos através da assimilação – um tipo de paz através de concessões. A idéia parece ser que, se nos tornarmos mais parecidos com o mundo, o mundo pode ser transformado para melhor. Entretanto, ironicamente, apesar de toda essa “camaradagem” dos líderes cristãos, o mundo diz: “Só queremos vocês se estiverem de acordo com os nossos termos; caso contrário, por favor, dêem o fora”.
Olhe ao seu redor. Veja o que acontece quando uma oração em nome de Jesus é feita em público. Depois pergunte-se quantas vezes você já ouviu o nome de Jesus sendo tomado em vão publicamente. Quando já se ouviu o mesmo desrespeito em nome de qualquer outra figura religiosa, tal como Maomé ou Buda? Ouça o que os neopagãos estão nos dizendo, dentro e fora dos tribunais.
Já não há mais nenhuma dúvida de que o cristianismo conservador está em julgamento como um mal que deve ser purgado da vida ocidental. Embora determinados elementos da sociedade tolerem praticamente qualquer outra religião, cultismo ou até mesmo grupos subversivos e destruidores, eles não toleraram um cristianismo vibrante que honra verdadeiramente a Cristo.
Quer gostemos, quer não, a face do Ocidente está mudando. Mas temos uma esperança segura. Deus não está morto nem abandonou Seu plano para Seu povo.
As megaigrejas podem se desviar do caminho; a dedicação de crentes verdadeiros pode diminuir; e pode ser que algum dia vamos nos unir a nossos irmãos em outros países, que passam por duras perseguições físicas. Todas estas coisas podem acontecer, mas elas também esclarecerão algo: em quem você colocou sua fé – em Cristo ou em uma experiência atual confortável, politicamente aceita. A verdadeira igreja permanecerá; governos poderão permanecer, ou não. Um relacionamento pessoal com Jesus Cristo é para hoje e para a eternidade. Todos os outros ajustamentos terminarão quando partirmos deste mundo.
Frances Jane “Fanny” Crosby, amada compositora de hinos de uma época passada, escreveu: “Fique com o mundo, mas dê-me Jesus”. Para ela, tudo começava e terminava nEle. Uma amiga dela certa vez comentou que era uma pena que Deus houvesse dado a Fanny tantos atributos maravilhosos, sem lhe dar o dom da visão. Fanny foi cega durante toda sua vida.
Mas ela disse à sua amiga: “Sabe de uma coisa? Se ao nascer eu pudesse ter feito um pedido, teria sido que eu nascesse cega”.
– “Mas, por quê?”.
– “Porque, quando eu chegar no céu, o primeiro rosto que vai iluminar minha vista será o do meu Salvador!”.
Disse Jesus: “Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo” (Jo 16.33, NVI). O Evangelho de Cristo é o que interessa. Ele é real, é pessoal, não é perecível, é a verdade sobre Jesus e não é negociável. (Elwood McQuaid — Israel My Glory — Chamada.com.br)
As opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores.

sábado, 24 de janeiro de 2015

A controvercia Arminiana e o Sínodo de Dort


Juliano Heyse


Os famosos cinco pontos do Calvinismo foram propostos originalmente por João Calvino, o grande reformador francês, certo? Errado. Se você pudesse voltar no tempo e perguntasse a Calvino quais são os 5 pontos, ele não teria a menor chance de acertar. Afinal os 5 pontos foram estabelecidos mais de 50 anos após sua morte. E isso não ocorreu em Genebra, nem na França, e sim na Holanda. E é para lá que temos que voltar nossa atenção, mais precisamente para a cidade de Dordrecht.
dort (24K)

Contexto histórico

Antes, porém, convém nos situarmos no tempo. Em 1517, Lutero publica as 95 teses (o início da Reforma Protestante). Quatro anos depois ele é "convidado" a se retratar na Dieta de Worms e lá ele faz o rompimento definitivo com a igreja católica, atrelando sua consciência à Palavra de Deus. Mais tarde, em 1536, na cidade de Genebra, Calvino publica a primeira edição das Institutas da Religião Cristã -  a melhor e mais completa sistematização da doutrina protestante até então. Aperfeiçoamentos ocorreram e a edição definitiva só foi fechada 23 anos depois, em 1559. Em 1564, Calvino morreu. Lutero já havia morrido, antes, em 1546. Os dois mais importantes reformadores já não viviam mais sobre a terra quando a nossa história começou.
Quanto a Armínio, muitas pessoas pensam que ele e Calvino travaram calorosos debates em que se digladiavam ferozmente em defesa das suas respectivas posições. Não seria totalmente impossível, mas considerando-se que Armínio tinha quatro anos de idade quando Calvino morreu, não parece razoável imaginar tal quadro. A verdade é que eles jamais se conheceram.

Igreja Reformada Holandesa

Mas vamos à nossa história. Voltamos a nossa atenção para a Holanda, que na época era conhecida como Países Baixos (o território que hoje é ocupado por Bélgica, Holanda e Luxemburgo). É lá que toda a trama acontece. Na época da Reforma o Rei da Espanha, Filipe II, governava os países baixos. O crescimento do protestantismo foi severamente coibido com fortíssimas perseguições e mortes. Estima-se que dezenas de milhares de protestantes foram mortos pelos dirigentes católicos que governavam o país.
A revolta contra os espanhóis foi crescendo até que Guilherme de Orange conseguiu, depois de muitas tentativas, conquistar a tão sonhada independência, mais tarde consolidada por seu filho Maurício de Nassau. Surgia uma nova nação protestante já que o país era, naquela época, de maioria calvinista. Os novos líderes resolveram adotar a religião reformada como religião oficial, utilizando-a como elemento de integração e estabilidade do novo país. Todos os oficiais da igreja reformada holandesa tinham que jurar seguir a Confissão Belga e o Catecismo de Heidelberg.
É importante ter em mente a forte ligação entre o estado e a igreja, comum nos tempos da reforma. Só que na Holanda as igrejas tinham uma autonomia relativamente grande, podendo nomear seus oficiais e exercer disciplina sobre os membros. Isso perturbava alguns membros do Estado. Em 1591, uma comissão, presidida por Johannes van Oldenbarnevelt e James Arminius,*(Jacó (português brasileiro) ou Jacob (português europeu) Armínio (em latim:Jacobus Arminius, nota do blog A tua palavra é a verdade) propôs uma estrutura mais ao gosto do poder secular: a escolha ,de oficiais da igreja passaria a ser feita por um grupo de representantes (quatro do Estado e quatro da igreja). Isso permitiu uma ingerência muito maior do Estado nos assuntos da igreja. Esta situação - a história mostra - costuma causar problemas. Levando-se em conta que outras religiões eram meramente toleradas (mas não tinham nem o direito de ter seus próprios templos), muitas pessoas vieram para a igreja, cuja vinda não teria ocorrido caso a igreja não fosse oficial do Estado holandês. Repetia-se algo como nos tempos do imperador romano Constantino - a igreja passava a atrair pessoas não regeneradas, muitas vezes com segundas intenções.

A Controvérsia Arminiana

Nessas condições, favoráveis por um lado, mas perigosas por outro, é que surgiu a Controvérsia Arminiana. Duas questões foram levantadas na época - uma doutrinária e outra de política eclesiástica. Primeiro: O ensino de James Arminius era compatível com a Confissão Belga e com o Catecismo de Heidelberg? Afinal, todos os oficiais da igreja haviam se comprometido a permanecerem fiéis a ambos os credos. Segundo: Caso o ensino não estivesse de acordo, a igreja reformada teria poder para destituir aqueles que pregavam doutrinas que conflitavam com aqueles credos?
A questão da autoridade tornou-se problemática porque o governo insistia em manter nos ofícios eclesiásticos pessoas que a igreja considerava que deviam ser destituídas. Dessa forma, entre 1586 e 1618 aumentou muito o número de ministros que permaneciam nas igrejas contra a vontade da congregação e das assembléias eclesiásticas. As igrejas, intranqüilas, exigiam a convocação de um sínodo nacional para esclarecer a situação. Mas o governo central temia o crescente poder das igrejas reformadas e insistia em não permitir a convocação do sínodo.
Foi em meio a tudo isso que James Arminius surgiu - um personagem controverso. Era considerado até pelos seus opositores como sendo um pastor fiel, bom cristão, sóbrio, moderado, homem sincero e de raras habilidades intelectuais. Mas é difícil não concordar com a principal acusação que ele sempre carregou: era um homem que sofria de uma certa "duplicidade". Isso ficará claro quando analisarmos a sua história nos próximos parágrafos.

James Arminius

Armínio nasceu em 1560, no sul da Holanda. Estudou em Genebra com Beza, o sucessor de Calvino. Tornou-se ministro em Amsterdam em 1588. Não foram seus escritos, mas sim sua pregação que começou a chamar a atenção por não parecer muito ortodoxa. Ele decidiu fazer uma pregação expositiva no livro de Romanos. Sua interpretação de boa parte dos primeiros textos do livro surpreendeu seus ouvintes. Mas foi no capítulo 7 que ele trouxe sobre si uma avalanche de protestos. O texto de Romanos 7:14-15 diz: "Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto.". Armínio propôs que esse texto se referia a uma pessoa não regenerada, contrariando o que os principais exegetas reformados sempre defenderam, ou seja, que Paulo falava sobre si mesmo, na condição de cristão. Ao pregar em Romanos de 8 a 11, ele enfatizou o tempo todo o livre arbítrio do homem e ao chegar a Romanos 13, afirmou que o Estado tinha a suprema autoridade em assuntos eclesiásticos e religiosos.
Por conta de tudo isso, um de seus colegas, Petrus Plancius, registrou denúncia contra ele para que ele fosse investigado pelo consistório. Havia rumores sobre o novo ensino em todo o país. Armínio, no entanto, confirmava pleno compromisso com a Confissão Belga e com o Catecismo de Heidelberg. No entanto, ficava cada vez mais evidente que ele tinha problemas com o artigo 16 da confissão, o qual afirmava a doutrina da eleição.
Em 1602 surgiu uma vaga na famosa Universidade de Leiden, para suceder um de seus principais professores de teologia, morto pela praga que assolava a Holanda naquele ano. Alguém indicou o nome de James Arminius para sucedê-lo. Havia uma preocupação quanto à ortodoxia de Armínio, e portanto a sua aceitação foi condicionada a uma entrevista com o Dr. Franciscus Gomarus sobre os pontos chaves da doutrina. Gomarus era um famoso Calvinista, profundo conhecedor da Palavra. Diante de diversos comissários, Armínio rejeitou publicamente diversas doutrinas pelagianas quanto a graça natural, livre arbítrio, pecado original e predestinação. Também prometeu jamais ensinar qualquer coisa em desacordo com a doutrina oficial das igrejas. Assim sendo, ele foi aceito como Professor de Teologia da Universidade de Leiden.
Em suas aulas públicas, Armínio permaneceu firme nas suas promessas. Mas em aulas particulares, a alunos selecionados, ele expressava francamente suas dúvidas e questionamentos. Esses alunos foram fortemente influenciados por ele e começaram a propagar alguns desses ensinamentos. Por onde iam, questionavam a doutrina reformada, atacando-a de diversas formas.
Armínio permanecia afirmando estar em pleno acordo com a doutrina reformada enquanto disseminava seus novos pontos de vista nos bastidores. Seus adversários o condenam fortemente por demonstrar absoluta falta de caráter fazendo um tipo de "jogo-duplo". Ao mesmo tempo, seus defensores o elogiam dizendo que tudo o que ele fez foi pensando sempre na unidade da universidade e das igrejas. O leitor pode decidir por si mesmo.

Arminius versus Gomarus

A intranqüilidade aumentava e em 1607 o sínodo da Holanda do Sul recebeu queixas contra os ensinamentos de Armínio. O sínodo convocou James Arminius e o colocou mais uma vez frente a frente com Franciscus Gomarus e os dois expuseram e compararam seus pontos de vista. Mais uma vez Armínio alegou total fidelidade à Confissão Belga e como os delegados não conseguiram perceber grandes diferenças entre o que foi exposto por Arminius e por Gomarus, recomendaram que houvesse tolerância mútua. Outra conferência foi convocada em 1609, também não redundando em avanços. Naquele mesmo ano Armínio morreu de tuberculose.

Os Cinco Artigos do Arminianismo

Com a morte de Armínio, sua causa passou a ser liderada por Johannes Uitenbogaard e Simon Episcopius. Em 1610, sob a liderança de Uitenbogaard, os arminianos se reuniram e elaboraram uma representação (remonstrance - por isso são conhecidos até hoje como os remonstrantes). Nela os arminianos atacavam algumas doutrinas calvinistas e estabeleceram 5 artigos com suas próprias posições:
1. A eleição está condicionada à previsão da fé.
2. Expiação universal (Cristo morreu por todos os homens e por cada homem, de forma que ele conquistou reconciliação e perdão para todos por sua morte na cruz, mas só os que exercem a fé podem gozar desse benefício).
3. Necessária a regeneração para que alguém seja salvo (aparentemente, uma visão perfeitamente ortodoxa, mas mais tarde ficou claro que a visão deles era tal que negava fortemente a depravação da natureza humana).
4. A possibilidade de resistir à graça.
5. A incerteza quanto à perseverança dos crentes (mais tarde eles deixaram claro que não criam de forma alguma na garantia da perseverança).
Os artigos foram assinados por 46 ministros.
Os calvinistas responderam com uma reafirmação da doutrina calvinista. Formou-se o grupo conhecido na história como os contra-remonstrantes. Isso ocorreu em 1611.

A convocação do Sínodo

O poder público não ficou indiferente à controvérsia que ganhava contornos cada vez mais perigosos. Havia pessoas que estavam utilizando a controvérsia religiosa para incitar rebeliões e outras formas de ação política. Assim, em 11 de novembro de 1617, Maurício de Nassau decidiu que um sínodo nacional deveria ser convocado em 1 de novembro de 1618. Estava criado o quadro para o surgimento do famoso Sínodo de Dort.
Encorajado pelo Rei Tiago I da Inglaterra, o governo central holandês enviou convites a diversos representantes de países reformados para que enviassem delegados para participarem do sínodo. O governo holandês requisitava a cada país que fossem enviados alguns de seus teólogos mais renomados, de proeminente erudição, santidade e sabedoria, que com seu conselho e juízo pudessem trabalhar diligentemente para apaziguar as diferenças que tinham surgido nas igrejas da Holanda, trazendo paz àquelas igrejas.
Outro motivo para convidar os teólogos estrangeiros, foi a tentativa de garantir a isenção que os remonstrantes alegavam que a igreja da Holanda não possuia. Uma terceira razão estava ligada ao fato dos remonstrantes alegarem continuamento ao povo que as demais igrejas protestantes compartilhavam da mesma visão que eles. A presença dos delegados estrangeiros poderia dirimir esta e outras dúvidas.

O Sínodo de Dort

Em 13 de novembro de 1618 o Sínodo Nacional de Dort foi estabelecido. Todas as despesas seriam pagas pelo governo holandês. O sínodo era composto de 84 membros e 18 comissários seculares. Dos 84 membros, 58 eram holandeses, oriundos dos sínodos das províncias, e os demais (26) eram estrangeiros. Todos tinham direito a voto.
Após um culto de oração todos foram para o local das reuniões. O moderador era Johannes Bogerman. A primeira atividade foi o pronunciamento do juramento:
"Prometo, diante de Deus em quem creio e a quem adoro, que está presente neste lugar, e que é o Perscrutador de nossos corações, que durante o curso dos trabalhos deste Sínodo, que examinará não só os cinco pontos e as diferenças resultantes deles mas também qualquer outra doutrina, não utilizarei nenhum escrito humano, mas apenas e tão somente a Palavra de Deus, que é a infalível regra de fé. E durante todas estas discussões, buscarei apenas a glória de Deus, a paz da Igreja, e especialmente a preservação da pureza da doutrina. Assim, que me ajude Jesus Cristo, meu Salvador! Rogo para que ele me assista por meio do seu Espírito Santo!"
Os membros foram divididos em 18 comitês. A cada questão proposta ao sínodo, cada um dos comitês formulava sua própria resposta que era depois apresentada ao Sínodo como um todo. O material escrito era entregue aos moderadores que compilavam um texto único. Esse texto era aprovado pelos próprios moderadores ou ia a voto.
O tema principal do Sínodo era o arminianismo. Foram convocados para comparecer diversos teólogos arminianos. Estes se reuniram antes em Rotterdam e nomearam oficiais para representá-los. A estratégia deles era atacar os contra-remonstrantes como sendo fanáticos religiosos. A idéia era centrar forças contra o supralapsarianismo de Gomarus.
Simon Episcopius foi escolhido para ser o orador dos remonstrantes. Logo na segunda reunião, ele já se indispôs com todos e usou de uma artimanha típica dos arminianos. Fez críticas ao Sínodo, ao governo e ao príncipe Maurício. Quando instado a fornecer uma cópia do discurso, alegou que esta estava ilegível. Mais tarde concordou em fornecer uma cópia, mas esta não continha as críticas aos governantes.
A batalha era severa. Os remonstrantes alegavam que o sínodo não tinha competência para julgá-los. Bogerman, o moderador, retrucava dizendo que o sínodo havia sido legalmente constituído pelo poder público. Os remonstrantes deveriam ter aceitado esse argumento, já que sempre defenderam que o estado é a autoridade máxima nas questões religiosas e eclesiásticas. Ao serem convidados a colocar no papel suas divergências em relação à Confissão Belga, os remonstrantes negaram-se a obedecer. Quando Bogerman perguntou se eles reconheciam os artigos da representação de 1610, permaneceram calados.
Como os remonstrantes dificultavam demais os trabalhos, em 14 de janeiro de 1619 Bogerman perguntou a eles definitivamente se eles iriam comportar-se e submeter-se ao Sínodo. Eles responderam que não se submeteriam ao Sínodo. Irritado, Bogerman precipitou-se e mandou-os embora sem consultar os demais membros. As mesas e cadeiras dos arminianos foram retiradas e passou-se a analisar suas opiniões através de seus escritos. O principal documento analisado foi a representação de 1610 com seus 5 artigos.

Os Cânones de Dort

O documento final, os Cânones de Dort, foi formulado em 93 artigos, separados em 5 pontos de doutrina. O documento foi assinado por todos os delegados em 23 de Abril de 1619. Foram ao todo 154 reuniões ao longo de sete meses. Prevaleceu a interpretação ortodoxa.
Muitos consideram injustas as medidas tomadas após o sínodo. Afinal, mais de 200 ministros remonstrantes foram depostos de seus cargos. Alguns se retrataram e retornaram às suas funções, mas boa parte foi definitivamente banida. Mas é bom lembrar que o que hoje seria considerado, talvez, indevida perseguição religiosa, era uma prática absolutamente comum a todas as religiões e países da época.
É importante entender também que os ministros remonstrantes eram muitas vezes mantidos em seus cargos apesar de estarem violando o juramento que fizeram de manterem-se fiéis à confissão belga e ao catecismo de Heidelberg. Isso era conseguido por meio do apoio de políticos poderosos. Enquanto isso, os mesmos políticos perseguiam os contra-remonstrantes chegando ao ponto, em algumas situações, de impedir-lhes o acesso ao local de culto. A religião e a controvérsia eram freqüentemente usadas para fins políticos.
Pode-se dizer que ocorreu com os arminianos o que já aconteceu centenas de vezes na história da igreja. Nas palavras de Johns R. de Witt:
"um homem raramente é honesto o suficiente para sair de sua igreja, se suas convicções são incompatíveis com as daquela igreja. Normalmente ele tenta, por meio de uma estranha linha de argumentação casuística, converter a igreja ao seu próprio entendimento da verdade".
Os arminianos, ao romperem suas promessas e no entanto permanecerem atuando na igreja, encaixaram-se perfeitamente nessa descrição.
É bom lembrar que outras religiões eram toleradas na Holanda naquele período, apesar de não poderem construir templos próprios. Entre estes haviam peregrinos, luteranos, anabatistas e até mesmo católicos romanos. Mas nenhum deles ameaçava a igreja "de dentro" como faziam os arminianos.

Conclusão

O Sínodo de Dort foi importante por ter mostrado a tentativa dos arminianos de diminuírem a soberania de Deus na salvação, engrandecendo o papel do homem na sua própria salvação.
Mais tarde, os cinco pontos de divergência em relação aos artigos arminianos passaram a ser conhecidos como os "cinco pontos do calvinismo" e um acróstico foi criado para facilitar a lembrança de cada ponto. A esse acróstico deu-se o nome de TULIP:
T  otal depravação
U  ma eleição incondicional
L  imitada expiação
I  rresistível graça
P  erseverança dos santos
É importante frisar que os cinco pontos e os cânones de Dort não são uma exposição da doutrina reformada. Esta é muito mais abrangente. Longe de serem uma exposição do calvinismo, os cinco pontos servem muito mais para enfatizar diferenças entre o calvinismo e o arminianismo, principalmente na relação da soberania de Deus com a salvação. O ensino de Calvino é muito mais amplo e abrangente e, no que se refere aos cinco pontos, alguns deles ele nem sequer tratou em profundidade, como é o caso, por exemplo, da expiação limitada.
Acreditamos firmemente que é importante conhecer as origens daquilo em que cremos e perceber que, tal qual ocorreu com outras doutrinas como a Trindade e a dupla natureza de Cristo, a verdade de Deus esteve sempre sob ataque e homens corajosos sempre se levantaram para batalhar "diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos" (Jd 3). Graças a Deus.

*http://pt.wikipedia.org/wiki/Jac%C3%B3_Arm%C3%ADnio

Bibliografia

Seaton, W. J., Os Cinco Pontos do Calvinismo (São Paulo - Editora PES)
Wikipedia, Synod of Dort, http://en.wikipedia.org/wiki/Synod_of_Dort
Vandergugten, S., The Arminian Controversy and the Synod of Dort,
http://www.spindleworks.com/library/vandergugten/arminian_c.htm
Wikipedia, Five Points of Calvinism,
http://en.wikipedia.org/wiki/Five_points_of_Calvinism


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

O monge que não era bom o suficiente.


Foi há pouco mais de 500 anos, no outono de 1510, que um monge Católico Romano desesperado fez o que ele pensava que seria a peregrinação espiritual mais importante de sua vida.
Ele havia se tornado monge cinco anos antes, muito para a surpresa e espanto de seu pai, que desejava que ele se tornasse advogado. De fato, foi em seu caminho para casa da faculdade de direito que esse jovem, então com 21 anos, se viu no meio de uma tempestade severa. Os relâmpagos eram tão fortes que ele tinha certeza que iria morrer. Temendo por sua vida, baseado em sua educação Católica Romana clamou por ajuda. “Santa Ana”, ele gritou, “poupe-me e eu me tornarei um monge!”. Quinze dias depois, ele deixou a faculdade de direito para trás e entrou em um monastério Agostiniano em Erfurt, na Alemanha.
O temor da morte o levou a se tornar um monge. E foi o temor da ira de Deus que o consumiu pelos próximos cinco anos – tanto que ele fez, de fato, tudo o que estava ao seu alcance para aplacar sua consciência culpada e ganhar o favor de Deus.
Ele se tornou o mais intransigente de todos os monges do monastério. Se dedicava aos sacramentos, jejuns e penitências. Chegou ao ponto de realizar atos de autoflagelo como ficar sem dormir, passar noites de inverno sem se cobrir para dormir e se chicotear, tentando pagar por seus pecados. Refletindo sobre esse tempo de sua vida, ele diria depois que “se alguém poderia conquistar o céu pela vida monástica, seria eu”. Mesmo seu supervisor, o chefe do monastério, se preocupava com o jovem se tornar muito introspectivo e consumido além da conta com as questões sobre sua própria salvação.
Mas as terríveis questões não iriam embora.
Esse jovem monge se tornou particularmente fixado no ensinamento do apóstolo Paulo sobre a “justiça de Deus” no livro de Romanos, especialmente em Romanos 1.17. Nesse verso, Paulo fala do evangelho: “visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé”.
Mas o entendimento desse jovem sobre o verso estava obscurecido. Lendo pela ótica da tradição Católica Romana, ele torcia o significado, pensando que ele teria que se tornar justo por seus próprios esforços para poder viver uma vida de fé. Mas havia um problema. Ele sabia que ele não era justo. Apesar de tudo que ele fazia para conquistar o favor de Deus, ele sabia que estava aquém do padrão perfeito de Deus.
Assim, como contaria mais tarde, ele passou a odiar a frase “a justiça de Deus”, porque via nela a sua própria condenação. Ele percebeu que se a perfeita justiça de Deus é o padrão (e é, obviamente), e se ele, enquanto homem pecador, não poderia alcançar esse padrão (obviamente, não poderia), então ele estava completamente condenado. Assim, frustrado e desesperado, se entrou ainda mais ferventemente às práticas estritas da vida monástica, tentando ao máximo conquistar seu caminho à salvação. E ele só ficava mais desencorajado e mais desesperado.
E foi assim que, cinco anos após se tornar um monge, no ano 1515, esse homem desesperado fez o que ele pensava ser a peregrinação espiritual de sua vida. Junto com outro amigo monge, viajou para o centro do poder e pensamento Católico – a cidade de Roma. Se alguém poderia ajudá-lo a acalmar a tempestade que se dava em sua alma, certamente seria o Papa, os cardeais e os sacerdotes de Roma. Além disso, ele pensava que se prestasse suas homenagens nos altares dos apóstolos e se confessasse lá, naquela santa cidade, ele asseguraria o maior perdão possível. Certamente essa seria uma forma de conquistar o favor de Deus. O jovem estava tão empolgado que, quando primeiro avistou a cidade, caiu de joelhos, ergueu as mãos e exclamou “Te saúdo, ó santa Roma! Três vezes santa pelo sangue dos mártires derramados aqui!”.
Mas em breve ele seria severamente desapontado.
Ele tentou se imergir no fervor religioso de Roma (visitando os túmulos dos santos, realizando atos ritualísticos de penitência, etc). Mas logo ele percebeu uma alarmante inconsistência. Ao olhar ao redor para o Papa, os cardeais e os sacerdotes, ele não via qualquer justiça. Pelo contrário, ele ficou perplexo com a corrupção, ganância e imoralidade.
Como o famoso historiador da igreja Philip Schaff explicou, o jovem ficou
chocado pela descrença, leviandade e imoralidade do clero. Dinheiro e vida luxuosa pareciam ter substituído a pobreza e abnegação apostólicas. Ele não via nada além de esplendor mundano na corte do Papa [...], e ouviu sobre os escabrosos crimes dos [Papas anteriores], desconhecidos na Alemanha, mas proclamados livremente como fatos indubitáveis na memória recente de todos os romanos… Lhe foi dito que “se havia um inferno, Roma foi construída sobre ele”, e que esse estado das coisas iria colapsar em breve.
Um homem desesperado em uma jornada desesperada, tendo devotado toda sua vida em busca de autojustiça e legalismo e não encontrando, foi à Roma em busca de respostas. Mas tudo que encontrou foi falência espiritual.
Desnecessário dizer que Martinho Lutero deixou Roma desiludido e desapontado. Relatou que, em sua opinião, “Roma, outrora a cidade mais santa de todas, agora era a pior delas”. Não muito tempo depois ele iria desafiar o Papa abertamente, chamando-o de anticristo; condenaria os cardeais por serem charlatões; e iria expor a tradição apóstata do Catolicismo Romano pelo que havia se tornado: um sistema destrutivo de justificação por obras.
A viagem de Lutero a Roma foi um desastre. Apesar disso, foi parte crítica de sua jornada rumo à fé verdadeira e salvífica. Pouco tempo depois, o intransigente monge descobriu a reposta para seu dilema espiritual: se ele era injusto, apesar de seus melhores esforços, como ele poderia ser feito justo perante um Deus santo e justo?
Em 1513 e 1514, enquanto ensinava no livro de Salmos e estudava o livro de Romanos, Lutero chegou ao conhecimento da gloriosa verdade que estava oculta a ele por tantos anos: a justiça de Deus revelada no evangelho não é meramente o requerimento justo de Deus – do qual todos os homens estão aquém (Romanos 3.23) – mas também a provisão justa de Deus, na qual, em Cristo, Deus imputa a justiça de Cristo àqueles que creem (Romanos 5.1-20).

As palavras do próprio Lutero resumem a gloriosa transformação que essa descoberta causou em seu coração:
Finalmente meditando dia e noite, pela misericórdia de Deus, atentei ao contexto das palavras “visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: ‘O justo viverá por fé’”. Então comecei a entender que a justiça de Deus pela qual vive o justo é um dom de Deus, pela fé… Aqui eu senti como se eu tivesse nascido completamente de novo e tivesse entrado em um paraíso cujos portões estavam finalmente abertos. Um lado completamente novo das Escrituras se abriu para mim… e eu exultava na doce palavra com um amor tão grande quanto o desprezo com que eu odiava o termo ‘justiça de Deus’.
Após uma vida de culpa, após anos lutando para se tornar justo por si mesmo, após tentar agradar Deus por suas próprias forças e após uma viagem desanimadora à Roma, Martinho Lutero finalmente entendeu o coração da mensagem do evangelho. Ele descobriu a justificação pela graça por meio da fé em Cristo; e, nesse momento, ele foi transformado.
Traduzido por Filipe Schulz | Reforma21.org | Original aqui
Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que informe o autor e o tradutor, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.

domingo, 16 de novembro de 2014

O que causou a Reforma?



Muitas pessoas tentam responder essa pergunta apontando para Martinho Lutero e suas95 Teses.
Mas se você perguntasse ao próprio Lutero, ele não iria apontar para si mesmo ou para seus escritos. Ao invés, ele daria todo o crédito a Deus e Sua Palavra.
Perto do fim de sua vida, Lutero declarou: “Tudo o que fiz foi destacar, pregar e escrever sobre a Palavra de Deus, e além disso não fiz nada. [...] Foi a Palavra que fez grandes coisas. [...] Eu não fiz nada; a Palavra fez e alcançou tudo”.
Em outro lugar, exclamou: “Pela Palavra a terra tem sido dominada; pela Palavra a igreja tem sido salva; e pela Palavra  ela também será reestabelecida”.
Notando o fundamento da Escritura em seu próprio coração, Lutero escreveu: “Não importa o que aconteça, você deve dizer: ‘Há a Palavra de Deus. Isso é minha rocha e âncora. Dela eu dependo e ela permanece. Onde ela permanece, eu, também, permaneço; para onde ela for, eu, também, irei’”.
Lutero entendia o que causou a Reforma. Ele reconhecia que foi a Palavra de Deus, pregada por homens de Deus, pelo poder do Espírito de Deus, em uma linguagem que as pessoas comuns da Europa poderia entender e quando seus ouvidos foram expostos à verdade da Palavra de Deus, ela penetrou seus corações e eles foram mudados radicalmente.
Foi esse mesmo poder que havia transformado o próprio coração de Lutero, um poder que é resumido nas palavras de Hebreus 4.12: “Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes”.
Durante o fim da Idade Média, a Igreja Católica Romana havia aprisionado a Palavra de Deus no Latim, uma língua que as pessoas comuns da Europa não falavam. Os Reformadores libertaram as Escrituras ao traduzi-las. E, uma vez que as pessoas tinham a Palavra de Deus, a Reforma se tornou inevitável.
Vemos esse comprometimento com as Escrituras mesmo nos Séculos anteriores a Martinho Lutero, começando com os Precursores da Reforma:
No Século XII, os Valdenses traduziram o Novo Testamento da Vulgata Latina para seus dialetos franceses regionais. De acordo com a tradição, eles eram tão comprometidos com as Escrituras que as famílias Valdenses memorizavam grandes partes da Bíblia. Dessa forma, se as autoridades Católicas Romanas os encontrassem e confiscassem suas cópias físicas da Escritura, eles seriam capazes de reproduzir toda a Bíblia memorizada depois.
No Século XIV, John Wycliffe e seus companheiros de Oxford traduziram a Bíblia do Latim para o inglês. Os seguidores de Wycliffe, conhecidos como Lolardos, viajaram por todo o interior da Inglaterra pregando e cantando passagens da Escritura em inglês.
No Século XV, Jan Huss pregava na língua do povo, não em Latim, o que fez dele o pregador mais popular de Praga, nessa época. Porém, porque Huss insistia que somente Cristo era o cabeça da igreja, não o Papa, o Concílio Católico de Constance o condenou por heresia e o queimou na fogueira (em 1415).
No Século XVI, conforme o estudo do grego e do hebraico foi recuperado, Martinho Lutero traduziu a Bíblia para o alemão, terminando o Novo Testamento em 1522.
Em 1526, William Tyndale completou a tradução do Novo Testamento em grego para o inglês. Em alguns anos, também traduziu o Pentateuco do hebraico. Pouco tempo depois, foi preso e executado como herege – foi estrangulado e depois queimado na fogueira. De acordo com o Livro dos Mártires, de Fox, as últimas palavras de Tyndale foram “Senhor, abre os olhos do rei da Inglaterra”. E foi apenas alguns anos depois de sua morte que o rei Henrique VIII autorizou a Grande Bíblia na Inglaterra – uma Bíblia amplamente baseada no trabalho de tradução de Tyndale. A Grande Bíblia lançou os fundamentos para a famosa versão King James (completada em 1611).

O fio condutor, de Reformador a Reformador, era o firme compromisso com a autoridade e suficiência da Escritura, a ponto de estarem dispostos a sacrificarem tudo, até suas próprias vidas, para levar a Palavra de Deus às mãos das pessoas.
Eles assim o fizeram porque entendiam que o poder da reforma e avivamento espiritual não estava neles, mas no evangelho (Romanos 1.16-17). E eles usavam o termo Sola Scriptura (“Somente a Escritura”) para enfatizar a verdade de que a Palavra de Deus era o verdadeiro poder e autoridade suprema por trás de tudo que fizeram e disseram.
Foi a ignorância da Escritura que tornou necessária a Reforma. Foi o resgate da Escritura que tornou possível a Reforma. E foi o poder da Escritura que deu à Reforma seu impacto marcante, conforme o Espírito Santo levava a verdade de Sua Palavra aos corações e mentes dos pecadores, individualmente transformando, regenerando e dando a vida eterna.

Traduzido por Filipe Schulz | Reforma21.org | Original aqui
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